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Ensaios-poéticos



Menina das tranças loiras
Que caminhas à beira da estrada
Levando sonhos embrulhados
Em tule azul celeste
Não vês como é grande e estranha
A saudade que paira sobre a tua cabeça

Ora descobre o Sol
Ora descobre a Chuva...

E tu, menina das tranças loiras
Desdobras a saudade ao Sol
Enquanto caminhas ansiosa
Na direcção do cais
Apesar de saberes que lá
A Chuva cai
E os sonhos não voltam.

Sentada à beira do cais
Vês o atracar de navios
Abarrotados de gente
Que vai para o lado de lá de ti

Subitamente, o Mar revolta-se
Com a audácia dos teus sonhos
E a Chuva cessa!

Olhas para trás
E desejas correr
Em busca do momento perdido.

Mas é tarde...

Ficas à beira do cais
Olhando para os navios
Estáticos e vazios.

Abres as mãos
E deixas deslizar por entre os dedos
A saudade inútil
Que outrora desdobráste ao Sol
Como sendo destroços de um naufrágio
Lançados à praia...

Manuela Fonseca

Fonte: http://ensaios-poeticos.blogspot.com/2007/06/menina-das-tranas-loiras.html

Passa a gaiata - 01Jul2007

Passa a gaiata
Vestida de prata
Rebolando as ancas
Ao longo da avenida

Lábios carmim
No rosto experiente
Passa a gaiata
Não vê e não sente
O nó desta vida

Luar citadino
Olhar a vibrar
Gargalhada à janela
Passa a gaiata
E a noite com ela?

Passa gaiata?
Passa!

Manuela Fonseca

Fonte: http://ensaios-poeticos.blogspot.com/2007/06/passa-gaiata.html

A Casa - 01Jul2007

Do lado direito da estrada
Recentemente alcatroada
Existe uma casa
De pedra cinzenta
Com profundas raízes
Abraçadas ao chão
Daquela terra esquecida no Tempo

Geme baixinho
A solidão e o frio
Retidos na lareira
Já sem vida.
Nas paredes de pedras
Bem amontoadas
O entardecer bocejava
Em tempos idos

No alpendre
Atafulhado de palha húmida
Cheira-se o bafio
Nascido ao longo dos anos.
Ao Sul
O poço secou
E na eira adormecida
Fragmentos de antigos cereais
Rastejam ao sabor do vento

Ao campo extenso da seara
O castigo é a secura
E à beira da casa
Um pomar
De frutos estéreis
Tombam aos olhares

Ervas daninhas
Nascem descontroladamente
Envolvendo a casa
Num profundo abandono.

A Casa?

Dez palmos de solidão!

Manuela Fonseca

Fonte: http://ensaios-poeticos.blogspot.com/2007/06/casa.html


Sento-me na Poltrona do Tempo
E cheia de paciência
Ponho-me a olhar
Para o dia de ontem?
Recordo frases frias
Ditas por alguém
Que me era estranho à alma.
Relembro vagamente
O primeiro beijo que me deram
Mas não o verdadeiro.
As cantigas da minha infância
Fazem-me chorar de pena
Das cantigas que não ouvi?
No jardim público da minha terra
Os meus filhos ganham o jogo
Que eu nunca aprendi a jogar.
A rua onde eu morei
Já não é a mesma
Mas o seu nome
Ainda se mantém.
O pátio onde eu cresci
Alegre de flores
E cantares de canários
É hoje um prédio cinzento
Estranho ao chão do pátio.
As bonecas que me entreteram
Perderam-se no tempo
Como os sonhos que sonhei?
E naquela fotografia
Envelhecida pelos anos
Tenho o sorriso
Daqueles que o sorriso desconhecem.

Deixem-me recordar
Sentada na minha Poltrona
Sem Tempo?

Manuela Fonseca

Fonte: http://ensaios-poeticos.blogspot.com/2007/06/deixem-me-recordar.html

Tu és especial... - 01Jul2007

Estava sem sono. E quando olhei para aqueles dois gatinhos entrelaçados num sono profundo, comovi-me! E lembrei-me das noites passadas na conversa onde nada era proibido, todos os assuntos vinham à baila.E ríamos. Ríamos muito, tirávamos fotos, ficávamos sérias, falávamos sussurrando e ouvíamos o "Oceano Pacífico". Foi tão gira aquela noite em que bebemos o leite todo, até acabarem os pacotes no frigorífico! Tu sempre gostaste do tempero do meu leite: Nesquik com açucar. E as torradas? Ai, as torradas! Sabiam sempre tão bem às 02h da manhã... Comíamos torradas com a mesma estupidez dos desordeiros que dão pontapés nos contentores do lixo às 03h da manhã e acham que são uns heróis! Tudo o que queríamos era beber a vida, sem culpas nem passados e muito menos pensar em futuros desconhecidos. Eu achava que escrevia umas coisas e continuei a escrever durante anos...
E aquela noite em que fomos ao Castelo de S.Jorge e comemos bolos na pastelaria do Rossio? Andei tanto nessa noite! Acho que nunca andei tanto e tão depressa, até então! E depois no Bora-Bora... Saímos de lá com uma flor na mão que nos deram à saída.
As conversas que nós tínhamos eram sempre tão cheias, disparatadas, sérias, às vezes, sinistras. Nessa noite, deu-nos a fome e fomos roubar couves ao quintal do teu pai. Que delicioso caldo verde! O caldo verde é sempre mais delicioso às 03h da manhã!

Hoje, a noite não tem Lua. Está de luto. Um luto belo e doentio. Por que será? Mas que disparate...
Não tenho queijo no frigorífico... Apetecia-me queijo da Serra com pão espanhol. Ai, que delícia! Sinto-me tão bem a comer pão com queijo... O resto, naquele momento, não me importa. Só o sabor variado do queijo. E sou muito exigente com o pão. Pois sou! Não gosto de pão de plástico! Gosto de pão autêntico, como tudo na vida.
Ah! Já te contei que fui ao Museu do Pão, em Seia? Adorei! Eu gosto de museus assim. Museus do povo. Coisas nossas.
Que frio, tenho os pés gelados. Talvez um chá quente resolvesse esta minha falta de sono. Não sei... Nem nunca vou saber porque não vou à cozinha encher um púcaro com água e meter lá dentro um pacote de chá de cidreira ou camomila... Ou talvez seja fome. Eu disse fome??? Sei lá eu o que é fome! Sei o que é apetecer comer, mas fome... Não! Sabes amigona, queria pegar numa fatia do céu e dividi-la pelos povos que morrem à fome todos os dias e minutos e segundos.

Tu és especial. És a melhor amiga. E tens um feitio que eu nem te digo! Mas és especial... Nunca ficas empanturrada com nada, só de pastéis de nata. Quentes, estaladiços... Seis pastéis de nata consolam-te. O teu marido desilude-te. Pelo menos, é o que estás sempre a dizer cada vez que ele não é perfeito como tu gostarias que ele fosse...
Será que os pastéis de nata são sempre perfeitos?

Manuela Fonseca
22/11/2006

Fonte: http://ensaios-poeticos.blogspot.com/2007/06/tu-s-especial.html


Na noite longa e permanente
De um dia sem entardecer
Encontrei-te sem destino

Sorrindo numa estrada paralela
Caminhámos de mãos dadas
Num tempo sem horas
Sem anos...

E que felizes nós fomos
Naquela estrada
Onde nunca nos cruzámos!

Manuela Fonseca

Fonte: http://ensaios-poeticos.blogspot.com/2007/06/e-que-felizes-ns-fomos.html